• Mayra Fragiacomo

Respeitem o meu “jeito”!



Trabalhar com Recursos Humanos é ter a oportunidade de, todos os dias, conhecer pessoas e profissionais diferentes. Tanto em suas habilidades técnicas quanto em seus aspectos comportamentais. Isso, claro, desdobra na possibilidade de aprofundar uma reflexão sobre diversas camadas e temáticas que podem e devem ser refletidas para compreendermos e contribuirmos para a evolução do mercado de trabalho e dos profissionais que nele atuam.

Recentemente um tema se tornou sensível para mim como pessoa e consultora. Muitas mulheres fortes e competentes naquilo que fazem relatando as dificuldades que enfrentam no dia a dia profissional por serem “do jeito” que são. Todas elas, sem exceção, são opinativas, sensíveis, questionadoras, críticas, objetivas, influenciadoras, enérgicas e desafiadoras do status quo. Apesar de não se definirem dessa forma, o que eu percebo é uma vontade, acima da média, de promoverem mudanças e uma inclinação natural de serem aquilo que o mercado cobra dos profissionais que querem “vencer”. E vencer sem uma conotação individual, mas sim sob a ótica do coletivo – bem diferente das receitas de sucesso das grandes publicações dedicadas à carreira.


Volto então às dificuldades sofridas por essas mulheres. Para minha grande surpresa, todas elas são cerceadas em suas ações. Seja de forma velada ou expositiva, o que acontece quase sempre é uma reação de indignação e inversão de valores. Todas elas têm sua força e competência confundidas com “excesso de histeria”, “necessidade de controle de personalidade”, “obrigação de mudança de comportamento” e, em casos mais injustos, foram até demitidas, por essas características. Ouvi relatos impressionantes: o de uma executiva que recebeu um feedback de sua chefe orientando que “encolhesse um pouco” para ser melhor aceita e o de uma profissional que teve sua capacidade emocional questionada tão somente por não ter concordado com um cliente.

Tal assunto me leva para uma outra reflexão necessária: profissionais homens com esses mesmos comportamentos são punidos ou legitimados? Um executivo homem que age de forma contundente e forte, não raro, é aplaudido e tem maiores chances até de evoluir em sua carreira. Ainda que ele passe dos limites e até mesmo constranja outras pessoas, o que não acontece com as mulheres citadas no texto, quase sempre se torna uma figura necessária para o atingimento dos objetivos e dos resultados das organizações.



Para as mulheres, pede-se para que repensem e mudem “seu jeito”. Para homens com o mesmo estilo, “esse jeito” representa liderança, estratégia e robustez. Precisamos começar a falar cada vez mais sobre isso, pois esse assunto é uma das muitas discussões necessárias para pensarmos em como promover igualdade de gênero no mercado de trabalho. Somente equiparar o número de mulheres e homens em seus quadros, especialmente em cargos de liderança, não é o suficiente, as empresas precisam dar o mesmo espaço e voz para ambos. Isso ainda, infelizmente, não acontece!








Por fim, sem a pretensão de ter a conclusão ou a resolução de um assunto tão denso, deixo um recado especial para todas as mulheres que se identificaram com meu texto: ainda que questionadas sobre suas ações e comportamentos, não se questionem. Não tentem mudar porque o outro (seja chefe, colega ou cliente) entende que você precisa mudar. Não deixe de promover reflexões críticas sobre os seus limites e formato de comunicação, evidente, mas nunca se permita a achar que sua força e competência é um “jeito” que precisa ser combatido. O único “jeito” aceitável nesse contexto é que você seja respeitada e, até mesmo, reconhecida por ser quem você é! Por: Mayra Fragiacomo