• Gabriela Savóia

O que o caso Moïse pode sinalizar sobre o trabalho e as desigualdades da maioria da população?


Foto: Nelson Almeida/AFP - Matéria do Expresso Carioca


O assassinato do imigrante congolês, Moïse Kabamgabe (24 anos), morto a pauladas por colegas de trabalho num quiosque na Barra da Tijuca (bairro nobre do RJ), no último dia 24, me atravessou profundamente. Moïse foi mais um jovem, negro e pobre, morto pelo racismo, pelo medo, pelo ódio e, principlamente, pela desigualdade social que afeta a maioria das pessoas pretas e pobres em todo o mundo.


Pensei muito em escrever algo sobre esse odioso crime, mas calei. Lamentar apenas não reflete o tamanho da indignação e não alivia a tragédia do ocorrido. Deixei para lá e me ocupei de minha vida privilegiada. Privilégio esse garantido não somente por conta da branquitude de minha pele mas, principalmente, pela “sorte” de ter nascido no “lugar certo e na família certa” - não ter sorte nesse mundo significa correr o risco de estar segurando o lado mais frágil da corda.


Meu silêncio me incomodou, mas acabei aquiescendo… Afinal, a gente costuma esquecer aquilo que os olhos não vêem! Ocorreu que, no último final de semana, assisti a um filme polonês (deixo as referências no final do texto), cuja história narra a ingrata missão de uma garota polonesa que deve buscar o corpo de seu falecido pai na Irlanda.


A história da menina e de sua família me fez pensar novamente em Moïse. Pois, assim como o desafortunado congolês, o patriarca do filme é um imigrante que deixa sua cidade natal (assim como milhares o fazem, todos os dias, seja para fugir da guerra, da fome, da falta de perspectiva…) para trabalhar em uma empresa insalubre de containers na Irlanda. Lá, ele se submete a um salário e condições de vida precárias, subemprego, solidão, xenofobia e indiferença do estado.


Fiquei mais uma vez pensando na tragédia que é nossa civilização, toda construída de sangue, escravidão, abusos, desigualdade… tudo para sustentar o conforto que o capitalismo garante para uma minoria de gente: especialmente branca e afortunada!

Me dei conta de que, talvez, como profissional de recursos humanos, eu possa contribuir de forma mais contundente para essa questão tão complexa. Veja bem, não me interprete mal, não estou dizendo que acredito que tenho o poder de solucionar o tema que está nas raízes da civilização. Seria, no mínimo, prepotência. Mas acredito verdadeiramente que, dentro de meu restrito universo, possa contribuir com mais intencionalidade às mudanças que podem impactar futuramente o mundo do trabalho e, quem sabe, um rearranjo dessa pirâmide injusta que coloca grande parte da população servindo de sustentação para o consumo e a lógica capital.

Contribuir na orientação de organizações e empresas que estão de verdade comprometidas com a inclusão, diversidade e gestão de pessoas é, ao meu ver, uma boa forma de fazer uma pequena diferença.


Foto: Nelson Almeida/AFP - Matéria da CartaCapital


Por isso, busco desempenhar um papel como consultora de RH da Job Transition, com foco em fortalecer sua gestão de pessoas sempre orientada ao respeito pelas regras trabalhistas. Procuro a clareza de cada etapa desses processos, o cumprimento de combinados entre os entes envolvidos (cliente x consultoria x profissional) e, principalmente, respeitando a individualidade, as diferenças (culturais, sociais e de gênero) e as subjetividades de cada um.


Não creio que, trabalhando com empregabilidade, consiga fechar mais meus olhos para a crise que assola o mundo do trabalho e as injustiças e abusos cometidos por empresas e organizações que só pensam em lucratividade a qualquer custo!


Não aceito projetos que corroboram para a perpetuação de uma vida indigna e que desqualificam os indivíduos por conta de sua raça, gênero, cultura ou país de nascença.


Por fim, Moïse não morreu só por ser preto, pobre e imigrante. Ele morreu, assim como milhares de homens, mulheres e crianças (inclusive o personagem do filme que citei) morrem todos os dias, para sustentar a roda do consumo e seus desdobramentos. Pessoas como Moïse disputam entre si uma porção de comida, um teto e o direito a existir. Disputam R$200,00, infelizmente!


  • filme: “Eu não choro”

direção: Piort Domalewisk

https://www.youtube.com/watch?v=hPzDuEt2wyA



Gabriela Savóia