• Gabriela Savóia

Janeiro Branco – Saúde Mental X Trabalho




Há muito ficou convencionado que os setores que atuam na Saúde dedicariam alguns meses do ano para, através de campanhas (Setembro Amarelo, Outubro Rosa e Novembro Azul), esclarecerem e chamarem a atenção da população para o câncer (em homens e mulheres) e o suicídio.

Aos poucos, essa agenda foi crescendo e, atualmente, em todos os meses ocorrem campanhas específicas, com o intuito de trazer temas de interesse público para debate e conscientização. Janeiro é o mês dedicado à saúde mental e é conhecido como Janeiro Branco, sabia?

A saúde mental das pessoas é constituída por muitos fatores: orgânicos, hereditários, ambientais, sociais e afetivos. Ou seja, além dos fatores inerentes ao indivíduo e sua construção física e mental, nossa psique sofre as influências de nossas relações pessoais, sociais e ambientais. É pensando nessa construção, de fora para dentro, que escrevo esse texto hoje.

Passamos a maior parte de nosso tempo cercado de pessoas e ocupando ambientes que, não necessariamente, escolhemos. Por esse motivo, estamos suscetíveis a encontros e espaços que nos agregam coisas positivas e negativas. Sempre bacana quando podemos nos relacionar com pessoas ou lugares que nos trazem satisfação, estimulam nosso desenvolvimento e, talvez, mais importante nos dias de hoje, que defendam e acreditam nos mesmos valores que nós.

Evidentemente que, num mundo diverso e amplo como o nosso, nem sempre as relações, situações (social, política, saúde e econômica) e ambientes são favoráveis e convergem. Algumas pessoas tiram de letra infortúnios comuns ao dia a dia, mas outras (e esse número só vem aumentando) sofrem demasiadamente quando expostas a ambientes tóxicos e desorganizados e, principalmente, quando não se sentem representadas por valores que as protejam.

Portanto, ambientes de trabalho onde não há preocupação e regras definidas – desde seus pilares com e para seu contingente humano -, podem vir a se tornar uma fábrica de pessoas adoecidas, contribuindo com o aumento de doenças mentais, tais como: stress, depressão, burnout, traumas, assédios e abusos que, em alguns casos, podem levar a pessoa ao suicídio.

Tenso isso!



O trabalho, invariavelmente, nos deixa vulneráveis. Afinal, é trabalhando que passamos a maior parte de nosso tempo e onde depositamos muitas de nossas expectativas de vida e de “sucesso”. Nesses espaços, lidamos com uma infinidade de outras pessoas – com suas ideias, conceitos e valores sobre a vida e o mundo. No meio disso tudo, soma-se o caráter político social onde todos estamos inseridos e que muitas vezes influencia as políticas de trabalho, econômicas e de saúde.

Ou seja, são muitas as variações de certezas e incertezas que um indivíduo sente ou pode sentir quando está trabalhando e isso, sem a devida atenção individual ou coletiva, pode agravar ainda mais o quadro de um profissional que sofre com sua saúde mental.

Passou da hora de empresas e organizações pensarem em estratégias de base para suas pessoas, que garantam seus direitos, respeitem sua individualidade e subjetividade (afinal, é nisso também que está a diversidade, pois somos diferentes uns dos outros) e estimulem seu desenvolvimento. E isso tudo sem deixar de lado a parceria e o acolhimento que toda relação saudável deve conter.


Uma pessoa adoecida mentalmente não pode oferecer um bom trabalho. Uma pessoa com sua saúde mental fragilizada não será capaz de manter sua produtividade, criatividade, dedicação, foco, energia e força em qualquer tarefa que não seja cuidar de si!

Quando um indivíduo chega ao ponto de adoecer mentalmente com os excessos de seu trabalho, incluindo os efeitos de relações abusivas – que podem vir de seus pares ou gestores –, é porque não encontrou, de forma saudável, caminhos para solucionar questões que, de tão profundas e complexas, o levaram ao adoecimento.


Sendo assim, conhecer seu funcionário (empregado ou colaborador, como preferir) e respeitar sua subjetividade, pode ser um bom começo para evitar que as pessoas de sua organização adoeçam. Claro que não basta conhecer as pessoas, mas manter políticas que priorizem, deem voz e respeitem sua diversidade – e, veja, não estou falando exatamente da diversidade racial, de gênero, de religião e social, estou apenas falando daquilo que nos faz diverso: nossa cultura e valores.

Com isso, chegamos ao ponto que considero o mais importante dentro de uma corporação preocupada com suas pessoas: manter uma cultura focada em seu contingente humano e sua diversidade, buscando respeitar a todos e incentivando o desenvolvimento profissional e pessoal de cada indivíduo, sem que seu tempo, sua vida e aquilo em que acreditam, seja desconsiderado ou sequestrado.

O trabalho, muitas vezes, acarreta no sequestro da subjetividade do indivíduo. O ser humano não foi feito para o trabalho, portanto, está em constante batalha consigo mesmo para encontrar propósito em suas escolhas e mantê-las de forma saudável e condizente com seus valores e cultura, inclusive. A subjetividade se refere àquilo que nos faz únicos, é nosso jeitinho de fazer e pensar o mundo e o que nos rodeia.


Contudo, é muito importante que, antes de pensarem em fórmulas que “resolvam” paliativamente a questão da saúde mental no trabalho, as empresas encarem cada profissional de forma única, pensando em políticas amplas que levem em consideração essa diversidade, buscando escutar seus profissionais e dar espaço para que possam trabalhar de forma criativa (de verdade), com autonomia e de acordo com aquilo que faz sentido para cada um.

Acredito que Saúde Mental não é um tema simples, tampouco para um único mês e, quanto mais pensarmos coletivamente no tema e buscarmos diálogo dentro das organizações, mais chance teremos de apoiar um número maior de pessoas que sofrem em seus trabalhos e encontrar maneiras eficazes de superar a questão do impacto negativo que o trabalho pode causar em alguns profissionais.

Vamos juntos criar esses espaços e possibilidades?



Gabriela Savóia